terça-feira, abril 04, 2006

A Sílaba

Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz,
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.

Eugénio de Andrade



Sílabas

Sílabas.
O álcool de Dezembro é frio e rouco.
O cigarro amargo. É um cigarro clínico.
Sílabas.
Com sílabas se fazem versos.

O tampo da mesa é liso.
Uma colher é uma forma complexa
familiar e deliciosa.
Um copo é nítido
como um criado sem servilismo.
Uma mulher condensa-se
no olhar do poeta.
Um corpo. Duas sílabas.
O dinheiro à justa. A gola da gabardina
para tapar a nuca
e os ouvidos.
Sílabas.

António Ramos Rosa

1 comentário:

Só para TI... disse...

Com a devida vénia e sem qualquer tipo de pretensão, apenas como comentário, sublinho:

Sílaba em TI,

Da salvação do indíduo,
à proclamação do colectivo
passamos sempre pelo par.

Par, um mais uma pessoa,
indivisíveis, unos no espaço.
Nascem, crescem e vivem para si.

Por si se desenvolvem,
homem e mulher se tornam
encontram-se, conhecem-se.

Palavras faladas, por vezes até escritas... que significam tudo.
Vida, morte, alimento, amor...

Podem as letras, formar sílabas?
As sílabas palvras e frases?
E quererem dizer mais, do que Te digo?